Gestão6 min de leitura
Riscos7 min de leituraAndi Arapi
Os jeitos pelos quais um DEA deixa de ser útil
Um desfibrilador falha quase sempre antes de ser ligado. Não por defeito: porque não é encontrado, não é alcançado, ou ninguém sabe que ele está ali.
O defeito não é o risco principal
No imaginário, o risco de um desfibrilador é ele não ligar. Na prática esse caso é raro: os DEA fazem um autoteste periódico e avisam sozinhos quando algo não vai bem. Os jeitos pelos quais um equipamento fica inútil são mais banais, e todos estão fora da caixa.
O primeiro é a acessibilidade. Um DEA dentro de um escritório que fecha às 18h é um DEA que não existe por dois terços do dia, e uma parada cardíaca não consulta horários. O segundo é a sinalização: sem uma placa visível do ponto em que se está socorrendo, o equipamento mais próximo é o que se conhece, não o que existe. O terceiro é a consciência: quem trabalha naquele prédio sabe que ele está lá? Sabe onde fica a chave, se a caixa estiver trancada?
Dados
Quando um DEA mapeado pode ser alcançado
Os 170.253 desfibriladores do nosso acervo, divididos pelo que declaram sobre os próprios horários. Toque um segmento para o detalhe.
Horário desconhecido71.635 equipamentos não declaram quando podem ser alcançados. Quem os procura tem que ir ver: é a informação que falta com mais frequência, e a mais cara de não ter.
Sempre abertos66.966 equipamentos declarados acessíveis 24 horas por dia. São o único grupo com que se pode contar a qualquer hora — e são menos de quatro em cada dez.
Horário limitado31.652 equipamentos só podem ser usados em certos horários. Não é um defeito em si: vira risco quando ninguém sabe antes de correr até lá.
Sobre 170.253 equipamentos mapeados no mundo.
Fonte: OpenStreetMap, elaboração própria sobre o acervo do SOS DAE
O que os dados públicos não dizem
Quem cuida de um desfibrilador costuma supor que, por estar cadastrado em algum lugar, ele também pode ser encontrado. Os dados abertos dizem outra coisa.
Contamos, um por um, os buracos do acervo mundial que o aplicativo usa. Não são estimativas: são os campos vazios.
Dados
O que falta nos dados públicos sobre DEA
Quantos equipamentos, de 170.253, estão sem cada informação.
- Sem endereço153.334
Nove em cada dez. Restam as coordenadas: elas levam até a frente do prédio, não até a caixa.
- Sem data de verificação147.046
Ninguém sabe se ainda estão lá. Um ponto no mapa sem data é uma informação de idade desconhecida.
- Sem nome140.499
«Desfibrilador» e nada mais: ao chegar no local, não se sabe qual porta abrir.
- Sem nome, endereço nem indicações37.851
Um ponto e nada além. São os casos em que o mapa diz que existe um DEA, mas não ajuda a encontrá-lo.
Passe o mouse sobre uma barra — ou chegue nela com o tab — para o detalhe.
Fonte: OpenStreetMap, elaboração própria (acervo de 23 de julho de 2026)
O que pode fazer quem tem um
A boa notícia é que as três falhas se fecham sem comprar nada. São horas de trabalho, não orçamento.
- Coloque a placa onde ela serve: não ao lado do DEA, mas no ponto de onde alguém vai ter que procurá-lo.
- Declare o horário real de acesso, mesmo que seja inconveniente. «Seg-sex 8h-18h» é uma informação útil; o silêncio não.
- Escreva onde ele está de verdade: «térreo, corredor do ambulatório, ao lado do extintor».
- Avise quem trabalha ali que ele existe, onde está, e que não é preciso treinamento para usá-lo.
- Atualize o ponto no mapa público: é o que vai ver quem não conhece o prédio.
- Registre a data da última verificação: é o campo que falta em 147.046 equipamentos de 170.253.
O minuto que conta
As diretrizes da ERC dizem que cada minuto sem desfibrilação tira cerca de dez pontos percentuais de chance de sobrevivência. É por isso que nada do que está acima é burocracia: uma placa que falta custa minutos, e minutos são a única moeda dessa história.
Nenhum dos riscos listados aqui tem a ver com a qualidade do equipamento. Todos têm a ver com a organização em volta — que é exatamente a parte que dá para arrumar.
Para levar
- Um DEA falha quase sempre antes de ser ligado: porta fechada, placa ausente, ninguém que saiba que ele existe.
- Menos de quatro equipamentos mapeados em cada dez declaram ser acessíveis 24 horas por dia.
- 147.046 desfibriladores de 170.253 não têm data de verificação: ninguém sabe se ainda estão no lugar.
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